Há uma magia peculiar em viajar de trem que nenhum carro ou avião consegue replicar. É a magia do tempo dilatado, da paisagem que desfila como um filme pela janela, da liberdade de caminhar pelo corredor, de sentar no vagão-restaurante com um copo de vinho enquanto vilas e montanhas passam lentamente.
Na Europa, essa magia ganha rotas. São jornadas onde o trem não é apenas o meio de transporte, mas o próprio destino — uma experiência que começa no momento em que você sobe a bordo e só termina quando o último vale foi admirado.
Aqui estão três rotas que provam que, às vezes, o caminho mais longo, mais lento e sobre trilhos é, sem dúvida, o melhor.

Por Que o Trem é a Melhor Escolha?
Antes dos roteiros, uma breve defesa do trem:
- Você é um espectador, não um motorista. Suas mãos estão livres para segurar um livro, uma câmera ou uma taça.
- Acesso direto aos corações das cidades, sem stress de estacionamento ou rodízios.
- Baixa pegada de carbono. Você viaja em sintonia com o planeta.
- Romance puro. Há um motivo pelo qual tantos filmes têm cenas em trens.
Agora, prepare sua mala (leve!) e sua passagem.
Roteiro 1: Os Alpes Suíços em 360° (O Clássico Absoluto)
Rota: Montreux → Zweisimmen → Interlaken → Luzern
Trem Principal: GoldenPass Line / Luzern-Interlaken Express
Duração: 1 dia (ou 2-3 dias com pernoites)
Este é o masterclass em viagem ferroviária. Não é sobre chegar; é sobre cada minuto dentro do vagão.
- Etapa 1: Montreux → Zweisimmen (GoldenPass Clássico)
- Você parte do lago Léman, com vinhedos em socalcos. O trem sobe devagar. As casas de chalé começam a aparecer. Em Rochers de Naye, se fizer o desvio, há uma vista deslumbrante.
- Dica: Reserve um lugar no vagão panorâmico. As janelas curvam-se até o teto.
- Etapa 2: Zweisimmen → Interlaken (GoldenPass Panorâmico)
- A paisagem se transforma no Vale do Simme, pastoril, com vacas de sino no pescoço. O clímax é a aproximação de Interlaken, com os picos gêmeos da Jungfrau, Eiger e Mönch dominando o horizonte.
- Pernoite Sábio: Fique em Interlaken ou na vila vizinha de Grindelwald. No dia seguinte, pegue o trem de cremalheira até a Jungfraujoch, o “Topo da Europa”.
- Etapa 3: Interlaken → Luzern (Luzern-Interlaken Express)
- Considerado um dos trajetos mais bonitos do mundo. O trem contorna o Lago Brienz, de águas turquesa impossíveis, e depois penetra no coração dos Alpes pelo desfiladeiro de Brünig. São lagos, cachoeiras e picos que parecem de cartão-postal a cada curva.
- Chegada: Em Luzern, você é recebido pela vista do lago e da velha cidade. O trem te deixa a poucos passos da capela de madeira.
Por que funciona sem carro: As estradas são sinuosas e você estaria focado no asfalto. O trem oferece visões amplas e inacessíveis pela rodovia, com conforto absoluto.

Roteiro 2: Do Mediterrâneo aos Pirenéus (A Costa & Montanha Espanhola)
Rota: Barcelona → Girona → Figueres → Canfranc (ou Jaca)
Trem Principal: Rodalies (R2/R11) + Media Distancia + Regional
Duração: 2-3 dias (recomendado)
Uma rota que combina cultura catalã, o surrealismo de Dalí e a grandiosidade dos Pirenéus.
- Dia 1: Barcelona → Figueres (via Girona)
- Pegue um trem regional cedo de Barcelona Sants. Em Girona (apenas 40 min), desça por 2-3 horas. Caminhe pelas Paredes Medievais e pelo bairro judeu.
- À tarde, pegue outro trem curtinho até Figueres. Aqui, o objetivo é um: o Teatro-Museu Dalí, a maior e mais surreal experiência imersiva dedicada ao artista. O prédio em si, com seus ovos gigantes, já vale a viagem.
- Pernoite em Figueres, uma cidade tranquila e autêntica.
- Dia 2: Figueres → Canfranc (A Jóia dos Pirenéus)
- Esta é a etapa épica. Pegue um trem regional que sobe pelo vale do Rio Noguera Ribagorçana. A paisagem muda drasticamente: planícies dão lugar a colinas e, depois, aos Pirenéus imponentes.
- O destino é a Estação Internacional de Canfranc. Não é apenas uma parada; é uma atração. Este palácio ferroviário abandonado por décadas, imenso e cheio de história (era rota de fuga na WWII), está sendo restaurado e é simplesmente hipnotizante.
- Alternativa: Se o horário for complicado, termine em Jaca, uma fortaleza pitoresca nos Pireneus aragoneses.
Por que funciona sem carro: A estrada para Canfranc é cheia de curvas. O trem oferece um percurso cênico e relaxante, além de conectar centros urbanos (Barcelona, Girona) a vilas montanhesas sem necessidade de mudar de estação.

Roteiro 3: A Itália dos Lagos e dos Vinhos (Do Glamour à Ruralidade)
Rota: Milano → Varenna (Lago de Como) → Tirano → (Bernina Express) → St. Moritz
Trem Principal: Trenord + Bernina Express (da RhB)
Duração: 2-3 dias
Este roteiro mistura a dolce vita italiana com uma das linhas ferroviárias mais espetaculares do mundo, patrimônio da UNESCO.
- Dia 1: Milano → Varenna (Lago de Como)
- Fuja do caos de Milão em um trem regional de 1 hora. Desça na estação de Varenna-Esino, uma das mais lindas do mundo, plantada à beira do Lago de Como.
- Explore a Villa Monastero e seus jardins, perca-se nas ruelas coloridas. À noite, coma um risoto à beira do lago.
- Pernoite em Varenna (mais autêntica e acessível que Bellagio).
- Dia 2: Varenna → Tirano → St. Moritz (O Dia do Bernina Express)
- Pegue um trem de volta a Lecco e depois um direto para Tirano (cerca de 2h). Em Tirano, troque para a linha de bitola métrica da Rhätische Bahn (RhB).
- Aqui começa o Bernina Express. Prepare a câmera. Em 2,5 horas, você vai:
- Subir os Alpes italianos sem cremalheira, apenas pela potência e engenharia do trem.
- Contornar a Espiral de Brusio, um viaduto circular de tirar o fôlego.
- Passar pelo Lago Bianco, congelado e de cor leitosa, a mais de 2.200m de altitude.
- Descer suavemente até o sofisticado St. Moritz, no cantão suíço dos Grisões.
- Dica Crucial: Reserve com antecedência. E, para mais flexibilidade e janelas que abrem, pegue o trem regional regular da linha Bernina (mesmo percurso, mais barato, sem reserva obrigatória).
Por que funciona sem carro: Dirigir pelo Lago de Como é um pesadelo de trânsito e estacionamento. E a estrada do Passo do Bernina é fechada no inverno e cheia de curvas no verão. O trem Bernina é uma obra de arte da engenharia que atravessa paisagens intocadas, inacessíveis de carro.

Kit de Sobrevivência do Viajante Ferroviário
- Apps Essenciais: Rail Planner (Eurail/Interrail), DB Navigator (excelente para toda a Europa) e Trainline.
- Bilhetes: Para roteiros pontuais, compre com antecedência no site das operadoras nacionais (SBB para Suíça, Renfe para Espanha, Trenitalia). Passees como o Eurail são ótimos para flexibilidade.
- Bagagem: Leve uma mala de mão prática e uma mochila. Você carregará tudo sozinho entre estações.
- Alimentação: Leve água, snacks e aproveite o vagão-restaurante! É parte da experiência.
- Flexibilidade: O trem atrasa, conexões podem ser perdidas. Faça parte do jogo. Tenha um plano B (e um bom livro).
Conclusão: A Arte da Chegada Lenta
Viajar de trem pela Europa é resgatar um ritmo de viagem quase esquecido. É entender que a distância entre dois pontos no mapa não é um vazio a ser preenchido o mais rápido possível, mas um território rico a ser vivido.
É a antítese do “já chegamos?”. É o prazer do “estamos chegando”, minuto a minuto, curva a curva, montanha a montanha.
Então, da próxima vez que planejar uma viagem, pergunte-se: o destino final é realmente o único objetivo? Ou a jornada — com suas vistas de tirar o fôlego, seus vagões silenciosos e seu ritmo humano — pode ser a maior recompensa de todas?
O trilho está à sua espera. A paisagem também. Basta subir a bordo.





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