Você já cruzou com um gato preto e imediatamente pensou em dar a volta no quarteirão? Ou recusou-se terminantemente a passar debaixo de uma escada apoiada na parede? No Brasil, um país de fé profunda e sincretismos culturais ricos, as superstições não são apenas crendices antigas — elas são pequenos rituais do cotidiano, vestígios de histórias que viajaram através do oceano e se enraizaram no nosso imaginário.
Algumas fazem tanto sentido quanto pareceriam para um estrangeiro: por que derramar sal seria mau agouro, mas atirá-lo sobre o ombro esquerdo seria a solução? Vamos explorar o fascinante (e às vezes hilário) mundo das superstições brasileiras mais estranhas, desvendando suas possíveis origens e o que elas revelam sobre nós.

As 7 Superstições Brasileiras que Vão de A a Z (de Azar)
1. Gato Preto: O Mensageiro do Azar (ou da Sorte?)
- A Crença: Se um gato preto cruzar o seu caminho, é sinal de mau agouro.
- A Origem Provável: Remonta à Idade Média na Europa, onde gatos pretos, especialmente os que acompanhavam mulheres solitárias, foram associados às bruxas e ao diabo pela Inquisição. A cor preta, associada à escuridão e ao desconhecido, solidificou o mito.
- O Contraponto Brasileiro: Em algumas culturas africanas, que também influenciaram o Brasil através da diáspora, o gato preto pode ser visto como um símbolo de proteção contra más energias. No Rio Grande do Sul, influência da imigração italiana, diz-se que se o gato preto vier na sua direção, traz sorte; se for embora, leva a sorte consigo.
2. Passar Debaixo da Escada: O Triângulo Profano
- A Crença: Passar por baixo de uma escada apoiada traz péssima sorte.
- A Origem Provável: A explicação mais forte é geométrica e simbólica. Uma escada apoiada na parede forma um triângulo, figura sagrada em muitas crenças (representando a Santíssima Trindade para os cristãos). Atravessar esse espaço seria violar o sagrado, uma profanação. Há também uma razão prática óbvia: é perigoso; algo ou alguém pode cair em você!
3. Derramar Sal: Um Pacto com o Demônio Desfeito
- A Crença: Derramar sal é convidar o azar para dentro de casa.
- A Origem Provável: O sal já foi um produto extremamente valioso (a palavra “salário” vem dele). Desperdiçá-lo era, portanto, um luxo caro e um mau presságio de perdas financeiras. A associação com o azar se fortaleceu na famosa pintura de Leonardo da Vinci, “A Última Ceia”, onde Judas Iscariotes é retratado derrubando um saleiro — selando sua traição.
- O Antídoto: Para anular o azar, deve-se pegar uma pitada do sal derramado e atirá-la por cima do ombro esquerdo. O lado esquerdo era associado ao mal e ao diabo (o “sinistro”). Jogar sal nele seria “cegar” o azar.
4. Guardar a Vassoura Atrás da Porta: Afastando Visitantes Indesejados
- A Crença: Se você guardar uma vassoura atrás da porta de casa, ninguém virá te visitar.
- A Origem Provável: Tem raízes na cultura africana. A vassoura, como instrumento de limpeza, tem um poder simbólico de varrer energias. Colocá-la atrás da porta, no limite entre o público e o privado, criaria uma barreira energética que “varreria” a intenção das pessoas de entrarem. É uma superstição ativa: usada quando você não quer receber ninguém.
5. Espelho Quebrado: 7 Anos de Azar
- A Crença: Quebrar um espelho traz 7 anos de má sorte.
- A Origem Provável: Vem dos romanos antigos, que acreditavam que a imagem refletida no espelho era uma extensão da própria alma. Danificar o reflexo seria danificar a alma. Os 7 anos vêm da crença romana de que o corpo se renovava a cada 7 anos — o tempo que a alma levaria para se curar completamente do “golpe”.
6. Sapatos Sobre a Mesa: Um Convite Para a Morte
- A Crença: Colocar sapatos em cima de uma mesa, cama ou cadeira é sinal de morte ou de grande infortúnio.
- A Origem Provável: Tem múltiplas fontes. Uma delas vem dos tempos das estradas de terra, onde os sapatos traziam muita sujeira. Colocá-los onde se come (mesa) ou se descansa (cama) era uma ofensa à higiene e ao lar. Outra origem mais sombria remete aos cortiços e casas velhas, onde colocar os sapatos para cima era um truque para que baratas e insetos não subissem por eles durante a noite. Associou-se, assim, à sujeira e à decadência, portais simbólicos para a morte.
7. Balançar as Pernas na Cadeira: Dinheiro que Vai Embora
- A Crença: Se você balançar as pernas sentado, especialmente sacudindo um pé, está balançando a sua riqueza para fora, afastando o dinheiro.
- A Origem Provável: É uma superstição muito ligada à ética do trabalho e ao valor do suor. O ato de balançar as pernas é visto como inquietação, nervosismo, falta de compostura — características de alguém que não é estável ou trabalhador. Se você não está “com os pés no chão”, não pode construir riqueza sólida. É um alerta comportamental disfarçado de agouro.
Por Que Ainda Acreditamos? A Psicologia do Talismã
Essas superstições sobrevivem não (apenas) pela ignorância, mas por uma necessidade psicológica profunda:
- Ilusão de Controle: Em um mundo imprevisível, os rituais supersticiosos dão a sensação de que podemos influenciar o acaso.
- Herança Cultural: Elas são fios que nos conectam aos nossos antepassados — indígenas, portugueses, africanos. Segui-las é uma forma inconsciente de honrar essa herança.
- Viés de Confirmação: Lembramos com clareza das vezes que cruzamos com um gato preto e depois tivemos um dia ruim, e esquecemos as centenas de vezes em que nada aconteceu.
Turista, Fique Atento! O Que Fazer (ou Não) no Brasil
Se você está visitando o Brasil e quiser evitar olhares de reprovação ou conselhos bem-intencionados:
- Evite dar presente de cortesia que seja afiado (facas, tesouras). Dizem que “cortam” a amizade. Se der, peça uma moeda simbólica em troca, como se estivesse “comprando” o presente.
- Cuidado ao elogiar um bebê sem dizer “Deus o abençoe” ou “Que ele seja sempre assim”. Algumas pessoas mais tradicionais acreditam que um elogio sem essa proteção pode atrair “mau-olhado”.
- Se oferecerem um “cafezinho” para depois da refeição, não recuse. Diz a sabedoria popular que “café após o almoço é o ouro sobre a azul” (algo perfeito). Recusar seria quase uma ofensa ao anfitrião.
Conclusão: Entre o Medo e a Poesia
No fundo, essas superstições são a mitologia do cotidiano brasileiro. Elas coloram o mundo de significados ocultos, transformam ações banais em pequenos dramas cósmicos e nos lembram que, por trás da realidade aparente, há sempre uma história sendo contada.
Elas não falam sobre o mundo como ele é, mas sobre como nos relacionamos com o mistério. São um testemunho de que, mesmo na era da ciência, ainda reservamos um cantinho para o encantamento, o cuidado e um pouquinho de medo saudável do desconhecido.
Portanto, da próxima vez que você vir um gato preto, talvez possa apenas admirá-lo. Ou, se preferir, dar aquela voltinha extra. No Brasil, a escolha entre a razão e o ritual é sempre sua — mas conhecer a história por trás de cada uma delas torna o caminho, seja qual for, muito mais interessante.





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